Dos meus sete mares permito que este adentres com tua ilustre embarcação.
Dei tudo. Tanto o que tinha quanto o que não mais podia ter e ainda assim as dívidas chegaram. Bateram na porta com os nós dos dedos calejados de tanto colidirem contra uma madeira desgastada cuja pintura há muito havia descascado.
Quando finalmente as atendi tinha a cara estrategicamente lavada, recentemente ensaboada e livre de qualquer semblante capaz de indicar que de alguma coisa eu sabia.
Ofereci um chá. De cadeira por não haver mais gás no botijão. Fizeram-me desfeita, não aceitaram, embora boa tenha sido minha intenção. Nesse momento seus olhares tortos teriam me atingido caso tivessem andado em linha reta e foi aí que ao evitar futuros golpes informei-lhes que retornaria num instante.
Sem esperar pela contestação por saber que ela viria tão rápida quanto o meu desespero, subi o lance de escadas contra o tempo. Contra ele também me seguraram. Já era hora, me disseram. Imobilizaram-me em meu limbo particular, entre o primeiro andar e o térreo do meu casebre, mais precisamente na metade da escada. Ficaram com o controle e a mim sobrou a cólera. Pude me imaginar descendo os degraus por mais que meus pés quisessem caminhar em sentido contrário. No entanto, não havia solução, o fato é que perderia o meu refúgio por tempo indeterminado.
Mal consegui calcular o quão desconfortável seria dividir a sala de estar com elas mais todos os pensamentos que jamais permiti ocupar outros cômodos. Então supliquei. Pedi por todos os santos e até por Deus, pedi pelos vivos e falecidos. Pedi por mim, por minha mãe, pelo meu sobrinho e até pelo meu tio-avô. Pedi por todos aqueles que defenderiam minha causa ou ao menos por quem eu esperava que a defendesse. Representei todas as vozes em uníssono a cada berro, ou a cada tentativa dele quando a voz inaugurou a falha.
A lista foi longa, mas não longa o bastante para me fazer esquecer que pedi também por você. Mais que isso, pedi pra você. Pra você me devolver, Cecília. Devolver tudo que te dei e que um dia foi meu. Tudo que está guardado no teu sótão empoeirado e pelo que você não tem mais zelo.
Com isso ganhei mais algum tempo pra te escrever, Cecília. Ajuda-me, por favor. Cilinha, só você sabe o quanto do tanto que devo a mim mesma está contigo: tudinho.
Com carinho, Alguém Que Já Disse Adeus
(Source: escritora-de-araque)
Dei tudo. Tanto o que tinha quanto o que não mais podia ter e ainda assim as dívidas chegaram. Bateram na porta com os nós dos dedos calejados de tanto colidirem contra uma madeira desgastada cuja pintura há muito havia descascado.
Quando finalmente as atendi tinha a cara estrategicamente lavada, recentemente ensaboada e livre de qualquer semblante capaz de indicar que de alguma coisa eu sabia.
Ofereci um chá. De cadeira por não haver mais gás no botijão. Fizeram-me desfeita, não aceitaram, embora boa tenha sido minha intenção. Nesse momento seus olhares tortos teriam me atingido caso tivessem andado em linha reta e foi aí que ao evitar futuros golpes informei-lhes que retornaria num instante.
Sem esperar pela contestação por saber que ela viria tão rápida quanto o meu desespero, subi o lance de escadas contra o tempo. Contra ele também me seguraram. Já era hora, me disseram. Imobilizaram-me em meu limbo particular, entre o primeiro andar e o térreo do meu casebre, mais precisamente na metade da escada. Ficaram com o controle e a mim sobrou a cólera. Pude me imaginar descendo os degraus por mais que meus pés quisessem caminhar em sentido contrário. No entanto, não havia solução, o fato é que perderia o meu refúgio por tempo indeterminado.
Mal consegui calcular o quão desconfortável seria dividir a sala de estar com elas mais todos os pensamentos que jamais permiti ocupar outros cômodos. Então supliquei. Pedi por todos os santos e até por Deus, pedi pelos vivos e falecidos. Pedi por mim, por minha mãe, pelo meu sobrinho e até pelo meu tio-avô. Pedi por todos aqueles que defenderiam minha causa ou ao menos por quem eu esperava que a defendesse. Representei todas as vozes em uníssono a cada berro, ou a cada tentativa dele quando a voz inaugurou a falha.
A lista foi longa, mas não longa o bastante para me fazer esquecer que pedi também por você. Mais que isso, pedi pra você. Pra você me devolver, Cecília. Devolver tudo que te dei e que um dia foi meu. Tudo que está guardado no teu sótão empoeirado e pelo que você não tem mais zelo.
Com isso ganhei mais algum tempo pra te escrever, Cecília. Ajuda-me, por favor. Cilinha, só você sabe o quanto do tanto que devo a mim mesma está contigo: tudinho.
Com carinho, Alguém Que Já Disse Adeus